Sunday, 28 February 2016

ROSALIA DE CASTRO - CANTARES GALEGOS

Hás de cantar, que che hei de dar zonchos,
Hás de cantar, que che hei de dar moitos.


Hás de cantar
meninha gaiteira
Hás de cantar
que morro de pena.

Canta, meninha
na beira da fonte
Canta, darei-che
bolinhos do pote.

Canta, meninha,
com brando compass’
darei-che uma proia
da pedra do lar.

Papinhas com leite
tamém che darei
sopinhas com vinho
torrijas com mel.

Patacas assadas
com sal e vinagre
que sabem a nozes
Que ricas que sabem!

Que feira, rapaza
se cantas, faremos!
Festinha por fora,
festinha por dentro.

Canta, se queres
rapaza do demo
Canta, se queres
hei dar-che um mantelo.

Canta, se queres
na língua que eu falo
Hei dar-che um mantelo
hei dar-che um refaixo.

Co som da gaitinha
co som da pandeira
che peço que cantes
rapaza morena.

Co som da gaitinha
co som do tambor
che peço que cantes
meninha, por Deôs.



GLOSSÁRIO

Zoncho: castanha cozida coa casca.

Moitos: muitos (o ditongo “oi“ por “ui“ é mui frequente em galego).

Proia: bolo grande de pam feito com trigo ou milho.

Pataca: batata.

Refaixo: peça interior de abrigo que levavam as mulheres por debaixo da saia e que tinha a forma desta.

Deôs: Deus. 


Sunday, 17 November 2013

APOCALIPSE

Capítulo 13

 
 
1  E eu pus-me sobre a areia do mar, e vi subir do mar uma besta que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre os seus chifres dez diademas, e sobre as suas cabeças um nome de blasfémia.

 2  E a besta que vi era semelhante ao leopardo, e os seus pés como os de urso, e a sua boca como a de leão; e o dragão deu-lhe o seu poder, e o seu trono, e grande poderio.

 3  E vi uma das suas cabeças como ferida de morte, e a sua chaga mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou após a besta.

 4  E adoraram o dragão que deu à besta o seu poder; e adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem poderá batalhar contra ela?

 5  E foi-lhe dada uma boca para proferir grandes coisas e blasfémias; e deu-se-lhe poder para continuar por quarenta e dois meses.

 6  E abriu a sua boca em blasfémias contra Deus, para blasfemar do seu nome, e do seu tabernáculo, e dos que habitam no céu.

 7  E foi-lhe permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los; e deu-se-lhe poder sobre toda a tribo, e língua e nação.

 8  E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

 9  Se alguém tem ouvidos ouça.

10 Se alguém leva em cativeiro, em cativeiro irá: se alguém matar à espada, necessário é que à espada seja morto. Aqui está a paciência e a fé dos santos.

11 E vi subir da terra outra besta, e tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro; e falava como o dragão.

12 E exerce todo o poder da primeira besta na sua presença, e faz que a terra e os que nela habitam adorem a primeira besta, cuja chaga mortal fora curada.

13 E faz grandes sinais, de maneira que até fogo faz descer do céu à terra, à vista dos homens.

14 E engana os que habitam na terra com sinais que lhe foi permitido que fizesse em presença da besta, dizendo aos que habitam na terra que fizessem uma imagem à besta que recebera a ferida da espada e vivia.

15 E foi-lhe concedido que desse espírito à imagem da besta, para que também a imagem da besta falasse, e fizesse que fossem mortos todos os que não adorassem a imagem da besta.

16 E faz que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, lhes seja posto um sinal na sua mão direita, ou nas suas testas;

17 Para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tiver o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome.

18 Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis.

Saturday, 12 October 2013


A selva de Esmelhe - Alvaro Cunqueiro


 

Quiçá melhor que dizê-la fora pintá-la, a selva de Esmelhe, que cai a mão direita, vindo para este reino pola banda de Leão. Ele, o caminho que eu levei deica[1] ao campo dos Trobos, adentra-se rubindo[2] volta a volta pola fraga de Eirís, que é tão mesta[3]: o caminho vai um pouco a rentes do rio, e quando ganha o chão, onde chamam Paradas, mete-se por entre os lamegueiros até aonde dizem Pontigo, que é uma ponte baixa de madeira, na que mui gostoso é de ouvir o trote curto dos cavalos dos viageiros que vão e vêm, caminho de Belvís

Os moinhos do Pontigo são agora duas moreias de pedra moura, nas que a hedra encalha e medra, pero[4] eu lembro-me ainda de quando moíam o trigo valeco[5] e o centeio das chairas, e havia maceiros ao longo das presas; o vento atirava maçãs à auga[6], e sempre havia uma dúzia delas, verdes ou coradas, bailando na escuma espessa e amarela, cabo[7] à enrelha[8] das canles[9]. Sempre ventea na carvalheira das Mouras, tão fusquenlha[10], e o caminho tem presa em passá-la e em chegar à aberta camposa de Miranda, às longas gândaras, às terras de folgado, às branhas[11] de El-Rei...

Desde Miranda vê-se Esmelhe todo arredor, o castelo de Belvís, a fraga da Serpe, a lagoa dos Cabos, e de dia, a seu carom, o fume das ferrarias do Vilar. Pola noite, desde Miranda, eu punha-me a olhar como se acendiam as luzes de Belvís nas outas[12] e aparelhadas torres, e em comparança com elas, como pousadas no chão, as luzes de Vilar: quando corria vento de Meira, eu tinha-me por que ouvia as badaladas do maço dos ferreiros. Desde Miranda vê-se tudo o chão de Quintais deica[13] ao Castro, e as centeeiras darem-se em ondas, como o mar, ao amor da brisa, e o ir e vir das mulheres à fonte do Couso. Sempre me lembrarei da cerca da eira, de loureiro romão, tão paxareiro[14], na que tantas ninhadas velei, e da figueira ramona, tão viciosa[15], ao pé da casa, onde ao palheiro grande. Miranda era a pousada de dom Merlin.

Eu dormia no faiado, numa câmara estreita, que tinha um ventano[16] que quadrava mesmo em riba do catre. Tomei gosto, pola noitinha, de rubir-me a este, e estar-me uma hora debruçado. E ele era polas luzes. Em Esmelhe, na noite, tudo se fazia com luzes. Já não digo as luzes de Belvis, que bem as mirava rubir[17] e baixar, como paxaros[18] acesos, polas fiestras[19] das torres ambas; por vezes, todo Belvís quedava às escuras, e a pouco, acendia-se uma luz pequeninha, como o olho dum moucho[20], no balcão da portada, e essa luz corria polo castelo, e eu mirava como passava duma câmara noutra, seguindo-a quando se derramava e guinhava[21] polas fiestras e fiteiras, e de súpeto[22] acenava umas senhas no outo[23] das ameias. E eu sabia que era o farol[24] do anão do castelo, que fazia a derradeira ronda. Já não digo tampouco as luzes do Vilar, com as que brincavam as polas das abidueiras[25]. Falo das luzes que andavam polos caminhos, polo caminho real, vindo de Meira, e polo caminho de Quintais, e polo caminho velho, que se afoga na lagoa dos Cabos, e também pola lagoa. E corriam e cruzavam-se, e de quando em vezes[26] juntavam-se três ou quatro e ele era como uma pequena fogueira no meio da noite. Cavalos galopando deviam levá-las, tal corriam. E se alguma tomava o caminho de Miranda, e vinha cara a mim[27], e até semelhava, tão viva vinha, que assobiava, prendia o medo em mim como alfinete no alfineteiro, e sem despir-me metia-me no catre e tapava-me a cachola[28] com a manta: uma manta a faixas verdes, que por ambos lados tinha escrito em letras vermelhas: DAVID. Eu tinha, em verdade, aquele David nomeado por meu defensor, e até lhe rezava. Pero penso agora que tais medos gostavam-me[29]... À alba vinham ver-me, fazendo ainda parte dos meus sonhos, os sinos de Quintais e o arrolo das pombas no bico do telhado. Uma manhã de sega foi quando vi na lagoa o barco veleiro, e outra de outono quando vi no outo[30] do Castro a trave de ouro. O inverno é longo, longo, em Esmelhe, e agás[31] que caia uma lua de geadas, tudo ele é chuva e neve. Pero o verão e doce, e também outonada.

 

Às vegadas[32], por fazer festa, o senhor Merlim saia à eira, e numa taça de cristal cheia de auga verquia duas ou três gotas do licor que ele chamava “dos países”, e sorrindo, com aquele aberto sorriso que lhe enchia a franca faciana[33] como enche o sol a manhã, perguntava-nos de que cor queriamos ver o mundo, e sempre que a mim me tocava responder, eu dizia que de azul, e então dom Merlim botava a auga, ao ar, e por um segundo o mundo todo, Esmelhe todo arredor, as brancas torres de Belvís, as pombas e o cão Ney, os roxos[34] cabelos de Manoelinha, a branca barba de mi-amo, o cavalo tordo[35], as bidueiras de Quintais e o tojo da coroa do Castro, tudo era uma longa nuvem azul que pouco a pouco se esvaia. O senhor Merlim sorria mentres secava a copa cum pano mouro. Esmelhe, selva longa e antiga, na memória levo-a eu de azul pintada, como se um enorme e morno luar pousara, num repente, na terra.




[1] até
[2] subindo
[3] espessa, densa
[4] mas
[5] próprio do vale
[6] água
[7] junto
[8] remoinho
[9] canos
[10] Rude, indômita
[11] terrenos ou prados mui húmidos ou alagados
[12] altas
[13] até
[14] passareiro
[15] crescida desmesuradamente
[16] janela pequena
[17] subir
[18] pássaro
[19] janelas
[20] mocho
[21] escapava, morria
[22] repentinamente
[23] alto
[24] lanterna
[25] vidoeiros
[26] De vez em quando
[27] na minha direção
[28] cabeça
[29] eu gostava de tais medos
[30] alto
[31] exceto
[32] por vezes
[33] cara
[34] vermelhos
[35] branco e preto

 
 

Sunday, 11 November 2012

A carom da natureza - Nos - Castelão



É no intre[1] em que a terra, para se dormir, vai virando as costas à luz, e o fume das telhas, mesto e leitoso, vai-se espargindo no fundo do vale. Não é cousa do outro mundo pintar o que veem os olhos, que serão comestos polos vermes; mas na paisagem há mais cousas que fitar, pois naquele moinho cantareiro dous namorados dão-se o primeiro bico[2] e naquele paço do castinheiro seco uivam os cães.

Do adro duma Igreja olhamos o vale afundido na chuva. A auga[3] que cai a fio sossega o fume azul contra as telhas brilhantes duma choça. Os caminhos estão cobertos de lama e um vendedor de cobertores passa cavaleiro na sua besta ferrada. Velaí[4] o quadro dum pintor; pero ainda há mais na paisagem, pois tocam a morto no campanário da Igreja e o som é tão amargurado como se batessem o sino com a mesma cabeça do morto e não adivinhamos em que casa do lugar há desgraça porque todas, todas, estão tristes.

Noite de luar. Na beira duma encruzilhada de lenda um cruzeiro tem a rentes[5] de si a mesa de pedra onde pousam os mortos para botar-lhes o responso; por entre os pinheiros amostra-se a ria maina; a lua está pendurada da pola[6] dum pinheiro. O pintor tem que evocar algo mais que uma visão, pois na mesa de pedra do cruzeiro, aquela mesma tardinha, pousaram o corpo morto dum rapaz que veio do serviço da tropa; por aquela congostra vai um estudante de crego[7] cavilando na moça do pano vermelho que lhe roubou a vocação. E ao longe cantam um alalá[8].

Manhancinha de domingo. Os montes de longe têm azures[9] de Patinir[10]; as giestas e os tojos põem as suas pintinhas amarelas na divina sinfonia verde da paisagem. Moitas cousas mais tem a paisagem para um artista, pois numa pola daquela macieira o melro de Guerra Junqueiro[11], “luzidio e jovial“ ainda, aguarda polo abade da aldeia para dar-lhe os “bons dias“; choveu ontem; os sinos da igreja repenicam uma moinheira e polos carreiros das veigas dacolá em baixo as formiguinhas negras e vermelhas vêm à missa.
 
O tempo engalanou com uma tona de ouro e prata o velho castelo feudal; os escravos do fisco sacham o milho nas leiras; entre os salgueiros sombriços do fundo do vale avista-se a foz do rio. O sol bate no lombo da terra. Tudo está disposto para pintar, porque tudo é regalia[12] dos olhos; pero na paisagem há mais. Hoje é véspera de São João, arrecende[13] a colo[14] de nai[15], cantam os grilos e o vento morno traz-nos de longe a som de um bombardino. Amanhã lavar-nos-emos com hervas arrecendentes.

Anoitecia. A silhueta negra dum pinho debuxava-se no azul-escuro do céu. Todos sabedes que na primavera os pinhos botam milheiros de velas, colhendo assim o aspeto de candeeiros gigantes. Quantas vezes sentimos desejos de acender as velas dos pinhos! Pois bem; perto do meu pinho acertou a passar o Viático aldeão (o crego, dous rapazes, quatro mulherinhas que vão pregando) e, ó milagre! o irmão pinho, sentindo o momento religioso e em homenagem à Sagrada Forma, acendeu as suas velas, que estiveram acesas entre mentres o Viático não se perdeu na revolta do caminho.

Um dia de Natal, olhando uma paisagem que imitava um presépio, decatei-me[16] de que há mais formosura nas florezinhas dos campos que nas flores de jardim. As florezinhas ventureiras que nascem nos campos parecem criadas polo Bosco ou por Breughel o velho, enquanto as flores foulentas[17] de jardim semelham os encoiros amanteigados de Rubens. Desde então eu quis ser um ventureiro das letras.


[1] Instante, momento
[2] Beijo
[3] Água
[4] Eis
[5] Arrimado, encostado
[6] Ramo
[7] Cura
[8] Canto popular galego que se caracteriza pola sua melancolia e languidez
[9] Azuis
[10] Pintor holandês
[11] Escritor português, que escreveu “O merlo”
[12] Abundância
[13] Cheira bem
[14] Regaço
[15] Mãe
[16] Apercebi-me, dei conta
[17] Poeirentas