Saturday, 12 October 2013


A selva de Esmelhe - Alvaro Cunqueiro


 

Quiçá melhor que dizê-la fora pintá-la, a selva de Esmelhe, que cai a mão direita, vindo para este reino pola banda de Leão. Ele, o caminho que eu levei deica[1] ao campo dos Trobos, adentra-se rubindo[2] volta a volta pola fraga de Eirís, que é tão mesta[3]: o caminho vai um pouco a rentes do rio, e quando ganha o chão, onde chamam Paradas, mete-se por entre os lamegueiros até aonde dizem Pontigo, que é uma ponte baixa de madeira, na que mui gostoso é de ouvir o trote curto dos cavalos dos viageiros que vão e vêm, caminho de Belvís

Os moinhos do Pontigo são agora duas moreias de pedra moura, nas que a hedra encalha e medra, pero[4] eu lembro-me ainda de quando moíam o trigo valeco[5] e o centeio das chairas, e havia maceiros ao longo das presas; o vento atirava maçãs à auga[6], e sempre havia uma dúzia delas, verdes ou coradas, bailando na escuma espessa e amarela, cabo[7] à enrelha[8] das canles[9]. Sempre ventea na carvalheira das Mouras, tão fusquenlha[10], e o caminho tem presa em passá-la e em chegar à aberta camposa de Miranda, às longas gândaras, às terras de folgado, às branhas[11] de El-Rei...

Desde Miranda vê-se Esmelhe todo arredor, o castelo de Belvís, a fraga da Serpe, a lagoa dos Cabos, e de dia, a seu carom, o fume das ferrarias do Vilar. Pola noite, desde Miranda, eu punha-me a olhar como se acendiam as luzes de Belvís nas outas[12] e aparelhadas torres, e em comparança com elas, como pousadas no chão, as luzes de Vilar: quando corria vento de Meira, eu tinha-me por que ouvia as badaladas do maço dos ferreiros. Desde Miranda vê-se tudo o chão de Quintais deica[13] ao Castro, e as centeeiras darem-se em ondas, como o mar, ao amor da brisa, e o ir e vir das mulheres à fonte do Couso. Sempre me lembrarei da cerca da eira, de loureiro romão, tão paxareiro[14], na que tantas ninhadas velei, e da figueira ramona, tão viciosa[15], ao pé da casa, onde ao palheiro grande. Miranda era a pousada de dom Merlin.

Eu dormia no faiado, numa câmara estreita, que tinha um ventano[16] que quadrava mesmo em riba do catre. Tomei gosto, pola noitinha, de rubir-me a este, e estar-me uma hora debruçado. E ele era polas luzes. Em Esmelhe, na noite, tudo se fazia com luzes. Já não digo as luzes de Belvis, que bem as mirava rubir[17] e baixar, como paxaros[18] acesos, polas fiestras[19] das torres ambas; por vezes, todo Belvís quedava às escuras, e a pouco, acendia-se uma luz pequeninha, como o olho dum moucho[20], no balcão da portada, e essa luz corria polo castelo, e eu mirava como passava duma câmara noutra, seguindo-a quando se derramava e guinhava[21] polas fiestras e fiteiras, e de súpeto[22] acenava umas senhas no outo[23] das ameias. E eu sabia que era o farol[24] do anão do castelo, que fazia a derradeira ronda. Já não digo tampouco as luzes do Vilar, com as que brincavam as polas das abidueiras[25]. Falo das luzes que andavam polos caminhos, polo caminho real, vindo de Meira, e polo caminho de Quintais, e polo caminho velho, que se afoga na lagoa dos Cabos, e também pola lagoa. E corriam e cruzavam-se, e de quando em vezes[26] juntavam-se três ou quatro e ele era como uma pequena fogueira no meio da noite. Cavalos galopando deviam levá-las, tal corriam. E se alguma tomava o caminho de Miranda, e vinha cara a mim[27], e até semelhava, tão viva vinha, que assobiava, prendia o medo em mim como alfinete no alfineteiro, e sem despir-me metia-me no catre e tapava-me a cachola[28] com a manta: uma manta a faixas verdes, que por ambos lados tinha escrito em letras vermelhas: DAVID. Eu tinha, em verdade, aquele David nomeado por meu defensor, e até lhe rezava. Pero penso agora que tais medos gostavam-me[29]... À alba vinham ver-me, fazendo ainda parte dos meus sonhos, os sinos de Quintais e o arrolo das pombas no bico do telhado. Uma manhã de sega foi quando vi na lagoa o barco veleiro, e outra de outono quando vi no outo[30] do Castro a trave de ouro. O inverno é longo, longo, em Esmelhe, e agás[31] que caia uma lua de geadas, tudo ele é chuva e neve. Pero o verão e doce, e também outonada.

 

Às vegadas[32], por fazer festa, o senhor Merlim saia à eira, e numa taça de cristal cheia de auga verquia duas ou três gotas do licor que ele chamava “dos países”, e sorrindo, com aquele aberto sorriso que lhe enchia a franca faciana[33] como enche o sol a manhã, perguntava-nos de que cor queriamos ver o mundo, e sempre que a mim me tocava responder, eu dizia que de azul, e então dom Merlim botava a auga, ao ar, e por um segundo o mundo todo, Esmelhe todo arredor, as brancas torres de Belvís, as pombas e o cão Ney, os roxos[34] cabelos de Manoelinha, a branca barba de mi-amo, o cavalo tordo[35], as bidueiras de Quintais e o tojo da coroa do Castro, tudo era uma longa nuvem azul que pouco a pouco se esvaia. O senhor Merlim sorria mentres secava a copa cum pano mouro. Esmelhe, selva longa e antiga, na memória levo-a eu de azul pintada, como se um enorme e morno luar pousara, num repente, na terra.




[1] até
[2] subindo
[3] espessa, densa
[4] mas
[5] próprio do vale
[6] água
[7] junto
[8] remoinho
[9] canos
[10] Rude, indômita
[11] terrenos ou prados mui húmidos ou alagados
[12] altas
[13] até
[14] passareiro
[15] crescida desmesuradamente
[16] janela pequena
[17] subir
[18] pássaro
[19] janelas
[20] mocho
[21] escapava, morria
[22] repentinamente
[23] alto
[24] lanterna
[25] vidoeiros
[26] De vez em quando
[27] na minha direção
[28] cabeça
[29] eu gostava de tais medos
[30] alto
[31] exceto
[32] por vezes
[33] cara
[34] vermelhos
[35] branco e preto

 
 

Sunday, 11 November 2012

A carom da natureza - Nos - Castelão



É no intre[1] em que a terra, para se dormir, vai virando as costas à luz, e o fume das telhas, mesto e leitoso, vai-se espargindo no fundo do vale. Não é cousa do outro mundo pintar o que veem os olhos, que serão comestos polos vermes; mas na paisagem há mais cousas que fitar, pois naquele moinho cantareiro dous namorados dão-se o primeiro bico[2] e naquele paço do castinheiro seco uivam os cães.

Do adro duma Igreja olhamos o vale afundido na chuva. A auga[3] que cai a fio sossega o fume azul contra as telhas brilhantes duma choça. Os caminhos estão cobertos de lama e um vendedor de cobertores passa cavaleiro na sua besta ferrada. Velaí[4] o quadro dum pintor; pero ainda há mais na paisagem, pois tocam a morto no campanário da Igreja e o som é tão amargurado como se batessem o sino com a mesma cabeça do morto e não adivinhamos em que casa do lugar há desgraça porque todas, todas, estão tristes.

Noite de luar. Na beira duma encruzilhada de lenda um cruzeiro tem a rentes[5] de si a mesa de pedra onde pousam os mortos para botar-lhes o responso; por entre os pinheiros amostra-se a ria maina; a lua está pendurada da pola[6] dum pinheiro. O pintor tem que evocar algo mais que uma visão, pois na mesa de pedra do cruzeiro, aquela mesma tardinha, pousaram o corpo morto dum rapaz que veio do serviço da tropa; por aquela congostra vai um estudante de crego[7] cavilando na moça do pano vermelho que lhe roubou a vocação. E ao longe cantam um alalá[8].

Manhancinha de domingo. Os montes de longe têm azures[9] de Patinir[10]; as giestas e os tojos põem as suas pintinhas amarelas na divina sinfonia verde da paisagem. Moitas cousas mais tem a paisagem para um artista, pois numa pola daquela macieira o melro de Guerra Junqueiro[11], “luzidio e jovial“ ainda, aguarda polo abade da aldeia para dar-lhe os “bons dias“; choveu ontem; os sinos da igreja repenicam uma moinheira e polos carreiros das veigas dacolá em baixo as formiguinhas negras e vermelhas vêm à missa.
 
O tempo engalanou com uma tona de ouro e prata o velho castelo feudal; os escravos do fisco sacham o milho nas leiras; entre os salgueiros sombriços do fundo do vale avista-se a foz do rio. O sol bate no lombo da terra. Tudo está disposto para pintar, porque tudo é regalia[12] dos olhos; pero na paisagem há mais. Hoje é véspera de São João, arrecende[13] a colo[14] de nai[15], cantam os grilos e o vento morno traz-nos de longe a som de um bombardino. Amanhã lavar-nos-emos com hervas arrecendentes.

Anoitecia. A silhueta negra dum pinho debuxava-se no azul-escuro do céu. Todos sabedes que na primavera os pinhos botam milheiros de velas, colhendo assim o aspeto de candeeiros gigantes. Quantas vezes sentimos desejos de acender as velas dos pinhos! Pois bem; perto do meu pinho acertou a passar o Viático aldeão (o crego, dous rapazes, quatro mulherinhas que vão pregando) e, ó milagre! o irmão pinho, sentindo o momento religioso e em homenagem à Sagrada Forma, acendeu as suas velas, que estiveram acesas entre mentres o Viático não se perdeu na revolta do caminho.

Um dia de Natal, olhando uma paisagem que imitava um presépio, decatei-me[16] de que há mais formosura nas florezinhas dos campos que nas flores de jardim. As florezinhas ventureiras que nascem nos campos parecem criadas polo Bosco ou por Breughel o velho, enquanto as flores foulentas[17] de jardim semelham os encoiros amanteigados de Rubens. Desde então eu quis ser um ventureiro das letras.


[1] Instante, momento
[2] Beijo
[3] Água
[4] Eis
[5] Arrimado, encostado
[6] Ramo
[7] Cura
[8] Canto popular galego que se caracteriza pola sua melancolia e languidez
[9] Azuis
[10] Pintor holandês
[11] Escritor português, que escreveu “O merlo”
[12] Abundância
[13] Cheira bem
[14] Regaço
[15] Mãe
[16] Apercebi-me, dei conta
[17] Poeirentas